sexta-feira, 12 de junho de 2015

Contributos para a compreensão da Batalha Naval de Riachuelo



CRONOLOGIA DA INVASÃO PARAGUAIA AO RIO GRANDE DO SUL - 1865

Luiz Ernani Caminha Giorgis, Cel

Ano de 1864

Abril - inicia o treinamento de soldados paraguaios em Encarnacion pelo Major Pedro Duarte e depois pelo Ten Cel Antônio de La Cruz Estigarríbia (Machado, 2010, p. 11).

11 de novembro - o governo paraguaio apreende em Assunção o vapor (paquete) brasileiro Marquês de Olinda que estava de viagem para o Mato Grosso prendendo o Governador e Comandante das Armas nomeado para aquela Província Cel Frederico Carneiro de Campos e todos os passageiros e tripulantes.

13 de dezembro - a República do Paraguai declara oficialmente guerra ao Império do Brasil.

Parte de Assunção uma expedição fluvial com 3.200 homens de Infantaria e uma coluna terrestre de 3.000 homens de Infantaria e de Cavalaria para a invasão paraguaia ao território brasileiro por Mato Grosso (Idem).

O 1º Ten Floriano Peixoto servia no 6º Batalhão de Infantaria em Uruguaiana desde dezembro de 1864, onde comandava a 7ª Companhia, e tinha a missão de executar fortificações na vila. Foi elemento fundamental na luta contra a invasão a Uruguaiana, quando comandou uma flotilha artilhada no rio Uruguai (Fonttes, 2013, p. 21).

1865

Janeiro - assume o Comando das Armas do RS o Tenente-General João Frederico Caldwell (Idem, p. 14).

7 de janeiro - Em consequência da iminente ofensiva paraguaia, o Império Brasileiro criou o Corpo de Voluntários da Pátria (CVP) pelo Decreto nº 3.371, desta data (Fonttes, 2013, p. 12).

1 de maio - Argentina, Brasil e Uruguai assinam em Buenos Aires o Tratado da Tríplice Aliança (Machado, 2010, p. 17).

8 de maio - chega a São Borja a notícia de que uma força de 11.000 paraguaios estaria em marcha pronta para invadir São Thomé e São Borja. A população de São Thomé abandona a vila (Idem, p. 12).

10 de maio - as famílias de São Borja também abandonam a vila. Alguns dias depois, desmentidas as notícias, a população retorna (Ibidem).

10 de junho -
Invasão de São Borja - Os paraguaios do Corpo de Exército do Tenente-Coronel Antônio de la Cruz Estigarribia começam a atravessar o Uruguai pelo Passo do Formigueiro, hostilizados por mais de 300 guardas-nacionais brasileiros ao comando do Tenente-Coronel José Ferreira Guimarães. Sobre a vila de São Borja já marchavam 2.000 dos invasores, com quatro peças de artilharia, dirigidos pelo Major López, quando acudiu o então Coronel João Manuel Menna Barreto à frente do 1° Batalhão de Voluntários (do Rio de Janeiro). O 22º Corpo de Provisórios, comandado pelo Tenente-Coronel Tristão de Araújo Nóbrega, com somente 230 homens também resiste à invasão. Às 1100 h estava concluída a travessia de Estigarribia.

As tropas brasileiras, embora muito inferiores em número (800 homens, incluindo os guardas-nacionais), conseguiram conter o inimigo, obrigando-o a retroceder para o Passo de São Borja.

Menna Barreto cobriu a vila combatendo até à noite e deu tempo para que a população se retirasse. O 1° Batalhão de Voluntários teve 36 mortos e feridos; e a Guarda Nacional, 10. Assim se pronunciou o Cônego de São Borja João Pedro Gay:

"À intrepidez do Coronel Mena Barreto e do 1° batalhão de voluntários devo eu, devem três quartas partes dos moradores de S. Borja o não termos caído prisioneiros dos paraguaios".

O inimigo só se animou a fazer a sua entrada na vila dois dias depois deste combate, ou seja, a 12 de junho (Rio Branco, 1999, p. 276).

11 de junho -
 a Armada Brasileira comandada pelo Chefe de Divisão (depois Almirante) Francisco Manuel Barroso da Silva, futuro Barão do Amazonas, destroça a Armada paraguaia em Riachuelo, rio Paraguai.

12 de junho - Estigarríbia entra e ocupa São Borja (Almeida, 1965, p. 58). Em São Borja Estigarribia divide sua tropa, designando uma coluna para progredir pela margem direita (lado argentino) ao comando do Maj José Duarte e a outra ao comando dele próprio pela margem esquerda (ldo brasileiro). Ambas, portanto, costeando o rio Uruguai.

18 de junho - Estigarríbia deixa São Borja e dirige sua marcha para Itaqui (Idem, p. 59).

26 de junho -
combate do Botuí entre a vanguarda das forças de Estigarribia e as tropas brasileiras do Cel Antônio Fernandes Lima e Ten Cel Sezefredo Alves de Coelho de Mesquita (Almeida, 1965, p. 61). Fernandes Lima ataca a vanguarda paraguaia, comandada pelo Major José Lopez que retrai buscando melhor posição. Chega então a Brigada de GN do Ten Cel Sezefredo, o que nos deu superioridade em efetivos. Os brasileiros envolvem os paraguaios, que ficam confinados em um pantanal, mas foi dizimado, perdendo 116 mortos e 120 feridos contra 40 mortos e 86 feridos da tropa brasileira. Os paraguaios remanescentes reuniram-se ao grosso da Divisão de Estigarribia (Donato, 1986, p. 217).

6 de julho - as forças de Antonio de La Cruz Estigarribia ocupam Itaqui (Machado, 2010, p. 35).

7 de julho - Estigarribia ocupa Itaqui, já evacuada pela população (Idem, p. 64).

10 de julho - o Imperador Dom Pedro II deixa o Rio de Janeiro em direção ao Rio Grande do Sul (Ibidem, p. 65).

14 de julho - Estigarribia deixa Itaqui e dirige sua marcha para Uruguaiana (Almeida, 1965, p. 66).

16 de julho - Dom Pedro II chega a Rio Grande (Idem).

19 de julho - Dom Pedro II chega a Porto Alegre (Ibidem, p. 68).

20 de julho - o Barão de Porto Alegre, Ten Gen Reformado Manoel Marques de Souza III é nomeado para o comando do Exército nas Missões compreendendo a linha São Borja-Uruguaiana-Quaraí-Santana do Livramento (Almeida, 1965, p. 68).

Passagem da função de Presidente da Província do RS de João Marcelino de Sousa Gonzaga para o Conde de Boa Vista Francisco do Rego Barros, que acumulou a função com a de Comandante das Armas e governou até 14 Abr 1866.

22 de julho - Após transpor o rio Ibicuí, Estigarribia acampa nas imediações de Japejú, município de Uruguaiana. Neste local, Estigarribia acantonou com parte de sua tropa quando foi tomado de surpresa pelas investidas da 2ª Brigada do Cel João Antonio da Silveira, o qual acometeu pela noite inteira os arredores da Estância do Japejú, deixando os paraguaios em alarme. A casa da estância ficava à beira do Arroio Japejú. 4

O ataque brasileiro realmente aconteceu precisamente às 1000 h, quando o Gen João Frederico Caldwell e Davi Canabarro, com uma vanguarda de mil homens, se defrontam com os paraguaios, que possuíam cavalaria e infantaria. Nossa tropa bate em retirada pela estrada geral em direção à estância do Major Mendes devido à superioridade numérica do inimigo, indo bivacar nesta estância. Os invasores, ao deixarem o local em direção ao arroio Toropasso, puseram fogo na estância de Japeju e, logo adiante, na estância de São Marcos (Fonttes, 2012, p. 52).

23 de julho - Estigarribia transpõe o rio Ibicuí pelo Passo de santa Maria e dirige sua marcha para Uruguaiana.

Dom Pedro II dirige-se por via fluvial de Porto Alegre para Rio Pardo (Idem, p. 69).

26 de julho - Estigarribia atravessa o Arroio Toropasso em direção a Uruguaiana (Ibidem, p. 70).

31 de julho - sob o comando do 1º Ten Floriano Vieira Peixoto entram em ação no Rio Uruguai um rebocador e dois lanchões, os quais isolam da coluna de Estigarríbia o Destacamento do Major paraguaio Pedro Duarte, que progredia pela margem direita do rio Uruguai.

A partir de Rio Pardo Dom Pedro II inicia sua travessia pela campanha em direção a Uruguaiana (Almeida, 1965, p. 71).

Às margens do Arroio Toropasso, Estigarribia teve que aguardar até 2 de agosto devido às cheias. Nas imediações, um dos nossos vapores impedia a passagem das canoas paraguaias no Toropasso e as comunicações entre Estigarribia e o Major Duarte. O 1º Tenente de artilharia Floriano Peixoto, comandante da Esquadrilha do Uruguai, foi auxiliado pelo Capitão de Fragata Alberto José Pereira Lomba nas operações, que contava com o vapor "Uruguai" e os lanchões "São João" e "Garibaldi", todos artilhados. O "Uruguai" põe a pique, na embocadura do Toropasso, várias canoas paraguaias e toma outras no período de 31 de julho a 2 de agosto.

Estigarribia, antevendo o perigo de sofrer retardamento em sua marcha, toma medidas de contra-ofensiva colocando uma Companhia de Infantaria, um Esquadrão de Cavalaria e uma peça de Artilharia nas barrancas do Uruguai, para fazer frente à Esquadrilha de Floriano Peixoto.

2 de agosto - o Major Pedro Duarte chega à região de Restauracion, (hoje Paso de Los libres) (Idem, p. 73). Estigarribia transpõe com toda sua tropa o arroio Toropasso, construindo uma ponte de circunstância com canoas (Fonttes, 2013, p. 53).

3 de agosto - às 1700 h a 2ª Brigada, por ordem do Brigadeiro Honorário Davi Canabarro, marcha para Uruguaiana a fim de proteger a retirada do 4º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional, que estava sob o Comando do Ten Cel Olivério Francisco Pereira. Posteriormente este Batalhão foi incluído na 1ª Divisão Ligeira de Canabarro, permanecendo na Vila como tropa de guarnição até a véspera desta localidade ser atingida pela coluna paraguaia (Fonttes, 2013, p. 17).

4 de agosto - nesta noite, Caldwell ordena à guarnição que evacue Uruguaiana, mas ainda tenta convencer os comandantes das divisões e das brigadas a atacar. Com exceção do Barão de Jacuí todos os demais preferem a prudência e optam por não atacar. Alegam a falta de Infantaria, e "soldados bisonhos e mal armados" (Bormann, 1897, p. 61).

5 de agosto - Estigarribia ocupa Uruguaiana, já evacuada pela população, e é cercado pelas tropas aliadas (Ibidem, p. 74). A coluna paraguaia avançou sobre a vila indefesa às 1000 h, tendo cruzado o arroio Imbaá dois dias antes. Esta força, ao atingir a 5

povoação, estava disposta em três colunas, deslocando-se a parte de Artilharia e os Trens de bagagem no centro do dispositivo (Fonttes, 2013, p. 26).

As forças do Coronel da Guarda Nacional Bento Martins de Menezes, futuro Barão de Ijuí, com o seu 17º Regimento de Cavalaria, acompanhavam os invasores, sempre na vanguarda, quando Estigarribia invadiu a Vila deserta pela Rua Tiradentes com as três colunas. Bento Martins tenta fazer frente aos batedores de Estigarribia, mas tudo em vão. Alguns soldados de Bento Martins são capturados e conduzidos a um local fora da vila, nas vizinhanças do cemitério, e degolados à vista de nossas tropas, que assistiam de longe (Fonttes, 2013, p. 53).

15 de agosto - o Conde d’Eu reúne-se à comitiva de Dom Pedro II em Caçapava (Ibidem, p. 78).

17 de agosto - Batalha de Yataí, território argentino próximo a Restauracion (hoje Paso de Los Libres), entre a vanguarda uruguaia do Gen Venâncio Flores e as tropas do Major Pedro Duarte. Participou a 12ª Brigada Imperial, comandada pelo Ten Cel Joaquim Rodrigues Coelho Kelly. Vitória total das tropas aliadas e prisão do comandante paraguaio (Almeida, 1965, p. 79). Esta batalha foi a partir das 1000 h. Ficaram no campo de batalha 1.700 homens mortos da coluna invasora, 300 feridos e 1.200 prisioneiros, entre estes, o próprio Comandante, Major Pedro Duarte que, ferido, foi recolhido preso ao hospital da Vila. Enquanto a batalha se desenvolvia o Ten Floriano Peixoto, com sua pequena flotilha, impedia qualquer ligação entre as forças sitiadas em Uruguaiana e as do Major Pedro Duarte (Fonttes, 2013, p. 31).

19 de agosto - Estigarribia tenta romper o cerco de Uruguaiana sem sucesso (Idem, p. 80).

20 de agosto - o Tenente-General Reformado Manoel Marques de Souza III - Barão de Porto Alegre, chega a Uruguaiana (Ibidem, p. 81).

21 de agosto - Chega a Uruguaiana o Capitão-de-Fragata Alberto José Pereira Lomba com dois vapores, o "Taquari" e o "Tramandaí" e duas chatas rebocadas. Esta flotilha veio se reunir à Esquadrilha do Uruguai, do Tenente Floriano Peixoto (Fonttes, 2013, p. 22).

21 de agosto - Manoel Marques de Souza III (futuro Conde com Grandeza), é nomeado "General Chefe do Exército em Operações na Província do Rio Grande do Sul". Este Exército contava com o efetivo de 19.500 homens (Fonttes, 2013, p. 28).

Venâncio Flores transpõe o rio Uruguai e reúne-se às tropas aliadas em Uruguaiana. O Barão de Porto Alegre assume o comando das forças aliadas em Uruguaiana e nomeia João Frederico Caldwell como seu Chefe de Estado-Maior (Almeida, 1965, p. 81).

23 de agosto -
Manoel Marques de Souza III organiza as tropas em quatro divisões ao comando do Cel Francisco Pedro de Abreu, Brigadeiro José Gomes Portinho e Cel Joaquim José Gonçalves Fontes. A Artilharia ficou sob o comando do Capitão Manoel de Almeida Gama Lobo d’Eça (Idem, p. 82).

2 de setembro - com a chegada do Almirante Joaquim Marques Lisboa - Marquês de Tamandaré, a Uruguaiana, os chefes aliados se reúnem. Presentes à reunião, além de Tamandaré: o Barão de Porto Alegre, o General Venâncio Flores e o argentino General Wenceslao Paunero. Flores e Paunero desejam atacar, mas Tamandaré e Porto Alegre resolvem esperar a chegada de Dom Pedro II e também o reforço de tropas de Infantaria. generais aliados intimam Estigarribia à rendição mediante um convênio (Ibidem, p. 85).

5 de setembro - Estigarribia rejeita a intimação dos aliados fazendo alusão a Leônidas e seus 300 espartanos (Almeida, 1965, p. 87). 6

10 de setembro - o governante argentino Brigadeiro-General Bartolomeu Mitre e o Ministro da Guerra brasileiro Ângelo Muniz da Silva Ferraz chegam à Uruguaiana (Idem, p. 88).

11 de setembro - Dom Pedro II chega a Uruguaiana (Ibidem).

13 de setembro - reunião dos chefes aliados a bordo do navio Onze de Junho, presidida por Dom Pedro II, para os planos de ataque à praça de Uruguaiana (Ibidem, p. 89).

15 de setembro - Dom Pedro II passa em revista as tropas uruguaias e argentinas (Almeida, 1965, p. 89).

16 de setembro - Dom Pedro II passa em revista as tropas do Brigadeiro Honorário Davi Canabarro (Idem, p. 90).

18 de setembro -
as tropas aliadas cerram sobre as trincheiras externas de Uruguaiana e a Artilharia é deslocada para a frente. Em função disto, o Ministro da Guerra, Ângelo Muniz da Silva Ferraz, mais tarde "Barão de Uruguaiana" foi pessoalmente levar ao chefe inimigo as condições de rendição impostas pelos aliados. Estava acompanhado do Chefe do Estado-Maior do Exército do Conde de Porto Alegre, General João Caldwell, do Major Miguel Meireles e do Major Amaral. Esta Comitiva dirigiu-se às linhas fortificadas. Feita a intimação à rendição em viva voz pelo Ministro Brasileiro, Estigarribia pediu-lhe que a formulasse por escrito, a fim de conferenciar com o seu Estado-Maior. Conforme o Coronel Augusto Fausto de Souza:

"... E sendo trazido para esse lugar uma mesa, sobre ela foi escrita a nota e entregue a Estigarribia, que prometeu resolver com brevidade. Voltando em seguida João Pedro Salvañach (Major secretário de Estigarribia), depositou nas mãos do Ministro brasileiro a declaração do Chefe inimigo, rendendo-se com a força a seu mando e pedindo a S. M. o Imperador do Brasil que fosse garante desse ajuste" (Fonttes, 2013, p. 37).

Estigarribia, cercado há 44 dias, rende-se às 1500 h e entrega sua espada para o Ministro da Guerra brasileiro Silva Ferraz. Em seguida, Dom Pedro II entra a cavalo na Vila de Uruguaiana.

5 de outubro - Dom Pedro II inicia sua viagem de regresso à Corte chegando a 9 de novembro (Almeida, 1965, p. 96 e 106).

*Gentil cedência de texto por Rui Santos  Vargas – Delegado em Portugal das Academias de História Militar Terrestre do Brasil

Fontes:

ALMEIDA, Antônio da Rocha. Efemérides dos Principais Fatos relacionados com a Campanha do Paraguai. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1965.

BORMANN, José Bernardino. História da Guerra do Paraguai. Curitiba: Editora Jesuino Lopes, 1897, vol I.

ESTIGARRIBIA, Antonio de La Cruz, Tenente-Coronel. Diário de Estigarribia-Campanha do Paraguai. In: Revista Militar Brasileira, Rio de Janeiro, Imprensa do Exército, 1965.

FONTTES, Carlos. Retrato de uma Rendição. Santa Maria: Pallotti, 2013.

GAY, João Pedro, Cônego. Invasão Paraguaia. Caxias do Sul: UCS, 1980.

MACHADO, César Pires. Aspectos da Invasão Paraguaia em São Borja. Porto Alegre: Edigal, 2010.

RIO BRANCO, Barão do. Efemérides Brasileiras. Brasília: Senado Federal, 1999.

Imagem da capa - Fonte: Tela a óleo de Carlos Fonttes (releitura), acervo do 8º R C Mec – Uruguaiana.

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